RÁpida ascensÃo

Quase 70km separam a estação de trem de Engenheiro Pedreira, em Japeri, na Baixada Fluminense, da sede do Botafogo em General Severiano, na Zona Sul do Rio, onde treina o time sub-20. A distância que Jonathan precisava vencer todos os dias ia muito além da geográfica. Apelidado de “Bebê”, o menino franzino e de rosto dócil se acostumou às longas viagens sobre trilhos — que continuaram quando começou a treinar entre os profissionais, no Estádio Nilton Santos — e a encarar limites (e rivais) que pareciam grandes demais.

Até aqui, o lateral-esquerdo venceu todas as etapas da curta carreira com a naturalidade de quem sempre arruma um jeito de se sentir em casa. A última foi ganhar vaga no time titular do Botafogo, que empatou no sábado com o Vasco. Escalado em cinco jogos, Jonathan ganhou um descanso e foi poupado do clássico, que seria seu segundo pelo Botafogo.

A estreia segura contra o Flamengo, em janeiro, deixou muito torcedor boquiaberto. No jogo em que marcou seu primeiro gol, contra o Boavista, nem as provocações do veterano Carlos Alberto tiraram Jonathan do sério. Só a mãe, dona Lucimar, é que ficou de coração na mão, mesmo conhecendo o jeito sossegado do filho, que fará 21 anos no domingo de carnaval.

Por volta dos 14 anos, Jonathan começou a ir sozinho de trem para os treinos do Nova Iguaçu, onde havia chegado aos 12. A mãe lembra, com orgulho, que a viagem nunca o impediu de ser pontual. Distância dura mesmo só quando o lateral-esquerdo passou uma temporada no Internacional, em Porto Alegre, logo no início da maioridade.

— Tinha dia que ele ligava chorando, queria estar mais perto. Eu dizia que estava tudo bem, mas no fundo morria de saudade — afirma Lucimar, merendeira na rede municipal de Japeri.

— A mãe toda hora liga para ele — confirma seu José Brito, pai de Jonathan, segurança em um hospital de Queimados. — Eu falei com ele antes do jogo contra o Flamengo, disse para não ficar nervoso. Futebol é que nem jogar uma pelada aqui perto de casa.

Houve quem chamasse Jonathan de “maluco” quando largou a chance no Sul para voltar ao Nova Iguaçu, à época na Série B do Estadual. O técnico Edson Souza, hoje no Resende, resolveu testar o jovem lateral em jogo-treino contra o América. Jonathan agradou tanto que chegou a atuar até de ponta-esquerda na campanha que garantiu o acesso à primeira divisão do Carioca.

— Me chamou atenção que ele era desinibido em campo, pegava a bola e sabia o que fazer. Ele não precisa falar muito. Só tem que se expressar — ensina Edson.

'Um pulo' até Botafogo

Distância à parte, do Nova Iguaçu para o Botafogo foi “um pulo”. No sub-20 alvinegro, Jonathan chamou atenção de treinadores pelas assistências. Assim que chegou ao profissional conquistou Zé Ricardo, que recomendou a renovação de seu contrato antes mesmo de estrear.

Jonathan já deu seu primeiro voo internacional pelo Botafogo, na última quarta, para a vitória por 3 a 0 sobre o Defensa y Justicia na Argentina. Foi um passo significativo, especialmente considerando que o lateral-esquerdo, até o início do ano, continuava viajando sobre trilhos para chegar aos treinos. A rotina mudou nas últimas semanas, quando mudou-se para um apartamento no Engenho de Dentro.

— Ele nunca reclamou dessa viagem de trem, isso é uma coisa que valorizamos nele. Mas não é bom, como atleta, ficar quatro horas em trânsito todo dia. Perde massa, deixa de se alimentar na hora certa — observa Jorge Moraes, empresário que acompanha Jonathan desde o Nova Iguaçu.

Exemplos não faltam na para guiar a estrela de Jonathan no Botafogo. Nilton Santos, antes de dar nome ao estádio, é a referência óbvia para quem busca o auge na lateral esquerda. Evitando comparações, o técnico Daniel Barboza, que trabalhou com Jonathan no sub-15, vê semelhanças com outro lateral que saiu do Nova Iguaçu e chamou atenção no Botafogo: Cortez, campeão da Libertadores pelo Grêmio em 2017. No seu início com a camisa alvinegra, Cortez também ia aos treinos de trem. Na avaliação de Barboza, que também trabalhou na base do Botafogo, a humildade vai além do discurso clichê e vira um trunfo no caso de Jonathan:

— Disse para ele depois do jogo contra o Defensa y Justicia, na Sul-Americana: “Sei que muita gente está te elogiando, mas você pode muito mais, continua com a cabeça no lugar”. Ele escuta o que as pessoas dizem, filtra as informações e, a partir disso, consegue fazer seu melhor.

Reportagem publicada no jornal O Globo em 25/02/2019

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